Economista, professora, uma referência para gerações de intelectuais. Maria da Conceição Tavares é por não poucos considerada uma das mais influentes pensadoras brasileiras da história recente.
Dona de sólido trabalho acadêmico, uniu à produção intelectual o intenso engajamento político. Compromissada desde sempre com a construção de um país mais justo, a portuguesa de origem - e brasileira de alma - Conceição comemora este ano seu 80º aniversário.
Em homenagem à ocasião (que já foi tema de especial no Portal FPA), sua obra é contemplada no livro Leituras Críticas sobre Maria da Conceição Tavares, lançamento da "Coleção Intelectuais do Brasil" publicado pela Editora Fundação Perseu Abramo em coedição com a Editora da UFMG.

Organizado por Juarez Guimarães, o livro se debruça sobre o legado da economista, numa coletânea de artigos produzidos por Ricardo Bielschowsky, Emir Sader, José Carlos de Souza Braga e Maurício Borges Lemos. A obra traz ainda uma entrevista de Conceição com o organizador do volume, e tem lançamento marcado para o dia 24/8, na UFMG.
O Blog FPA celebra a contundência reflexiva e o vigor militante de Maria da Conceição Tavares oferecendo aos seus leitores e leitoras alguns trechos inéditos do bate-papo, publicado no livro, entre a economista e Juarez Guimarães. A entrevista, presente na íntegra no lançamento, também pode ser lida em versão reduzida na matéria de capa da revista Carta Capital desta semana.
Sobre a formação da nova esquerda brasileira
Juarez Guimarães: Em um ensaio de análise de conjuntura do novo ciclo econômico de crescimento e inclusão social iniciado em 2005, propusemos, como síntese de seu significado, que ele se chamasse Celso Furtado/Maria da Conceição Tavares, por revelar não apenas as conquistas do povo brasileiro, mas a luta política intelectual de seus pensadores críticos. Sabendo que o PT havia se formado externamente à tradição nacional-desenvolvimentista, sua entrada no partido no início dos anos 1990 certamente dinamizou a evolução programática nessa direção. Por que você entrou no PT e qual a sua participação na formação do novo programa que ali estava se construindo para o Brasil? Quais são as ideias centrais que levou para o seu novo partido político?
Maria da Conceição Tavares: Entrei no PT para continuar a luta política pelos meus sonhos de um Brasil novo. Minha participação na formação dos programas que foram se gestando de 1994 em diante foi particularmente intensa no período 1994-2002, quando Lula, ademais de nosso candidato permanente, dirigia o Instituto da Cidadania. Uma ONG na qual participavam ativamente a maioria dos intelectuais de esquerda do Brasil e boa parte dos dirigentes partidários e dos líderes sindicalistas do próprio PT. Foi um período muito rico, uma espécie de universidade aberta para todos. O “aluno” que mais participava, com atenção extrema e perguntas provocadoras, era, sem dúvida, o próprio Lula. Suas ideias a respeito do Brasil e do mundo, sua memória e sua inquietação permanente fazem dele o maior intelectual orgânico do povo brasileiro. Minha contribuição a algumas ideias centrais que hoje fazem parte do ideário partidário foram, sobretudo, na questão nacional, na qual tenho que destacar a participação de Marco Aurélio Garcia, um dos grandes intelectuais do partido, e a questão da universalização das políticas sociais. Essa foi uma discussão importante no partido, já que não havia acordo sobre questões relevantes a respeito de saúde pública e a previdência social, em resumo, do próprio conceito de seguridade social que fazia parte da Constituição de 1988.
Sobre esperanças e socialismo democrático
Juarez Guimarães: Para a reconstrução de uma cultura do socialismo democrático, em seu instigante ensaio de 1991, “Economia e felicidade”, você critica a separação na cultura da esquerda que houve, a partir de um certo momento do século XX, entre a crítica cultural do capitalismo e a economia política. Parece-nos ser central, desde essa perspectiva, a noção estratégica de planejamento democrático como modo de combinar eleição humanista dos fins com a racionalidade dos meios que, no capitalismo, aparece desconectada. Em que medida pode-se avançar na direção de um planejamento democrático numa economia como a brasileira, submetida a tantos constrangimentos externos e internos?
Maria da Conceição Tavares: A resposta a essa pergunta é simples. Só a luta pela inclusão social e pela autonomia nacional pode nos levar a um verdadeiro planejamento democrático.
Leia também:
- Especial: Maria da Conceição Tavares, 80 anos
- Revista Teoria e Debate: Entrevista de Maria da Conceição Tavares a Fernando Haddad (edição nº 37 - fevereiro/março/abril de 1998)
- Link Externo: Video - Bate Papo UFRJ - Entrevista com Maria da Conceição Tavares
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