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nº 07 - julho/agosto/setembro de 1989

Teoria e Debate nº 07 - julho/agosto/setembro de 1989

publicado em 06/11/2009

Capa TD: 

nº 07 - julho/agosto/setembro de 1989

Capa e ilustração: Duto Bicalho

 

07

Apresentação

A morte continuada e lenta dos índios brasileiros; a morte dos manifestantes, brutal e instantânea, na praça da Paz Celestial em Pequim. Difícil é tatear, no curso das tragédias, as fagulhas da vida, a permanência do passado, a direção do futuro. A barbárie, quando se impõe, corrói a História e inutiliza o pensamento.

A entrevista com Ailton Krenak, índio brasileiro, dirigente da UNI (União das Nações Indígenas), realizada por Alípio Freire e por Eugênio Bucci para esta edição de Teoria e Debate, é reveladora de uma resistência lúcida à marcha da barbárie que concorre para a extinção dos povos indígenas e para o soterramento da memória. As palavras de Krenak trazem um insubstituível sopro de humanidade aos dias de hoje. O mesmo se pode dizer da matéria criteriosa de Marília Andrade sobre o movimento iniciado pelos estudantes de Pequim exigindo democracia e transparência do governo chinês, que encerrou seu primeiro capítulo como sangrento massacre. Tanques e metralhadoras aniquilando jovens desarmados. Ali, atentou-se gravemente contra o futuro.

"O comunismo sofreu um golpe, o comunismo tombou com aqueles que perderam a vida em Pequim", diagnosticava o pensador, militante e historiador marxista Jacob Gorender, no debate sobre o assunto promovido por esta revista na noite de 14 de junho na Sala dos Estudantes da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, em São Paulo. A debatedora Marília Andrade esclareceu, para os duzentos presentes, que os manifestantes chineses, em momento algum - ao contrário do que noticiou fartamente a imprensa burguesa de muitos países colocaram em questão as bases do socialismo naquele país. Exigiam, isto sim, o aperfeiçoamento do socialismo. Esta análise só se fez reforçar com o depoimento do jornalista Jaime Marfins, da Agência Estado, que compareceu ao debate três dias depois de chegar da China, onde vivera com sua família por quase vinte anos. O historiador Daniel Aarão Reis Filho, autor dos livros A construção do socialismo na China e A Revolução Chinesa, da editora Brasiliense, contribuiu problematizando e aprofundando a discussão sobre as raízes do autoritarismo no próprio marxismo.

Após três horas de discussão, Jacob Gorender, coroado de aplausos, exprimia o seu estado de espírito: "Saímos daqui hoje mais comunistas, saímos daqui muito mais petistas". Com efeito, o que a situação chinesa deixa demonstrado não é a morte do comunismo, mas a falência dos modelos burocráticos que têm usurpado o poder nos países socialistas, contra as aspirações das massas. Não é sem razão que, em seu último Encontro Nacional, o Partido dos Trabalhadores decidiu romper relações com o Partido Comunista Chinês. Com a chacina que perpetrou contra seu povo, este partido passa afazer oposição ao futuro, à democracia, ao comunismo e à revolução. Enquanto a imprensa burguesa procura qualificar o governo e o PC chinês como a personificação do comunismo, ou do socialismo, e procura fazer do movimento de massas daquele país o sintoma de um desejo de volta ao capitalismo, as evidências que se apresentam são outras: o governo chinês deve ser derrotado para que o socialismo possa avançar - este o real desejo das massas.

A disposição em avançar o socialismo é bem mais visível na União Soviética. O processo de democratização e de transparência que lá se dá não está ileso a choques, contradições, atritos. Mas há um processo real em andamento. Teoria & Debate publica, nesta edição, o testemunho de Pierre Broué, historiador trotskista francês, reconhecido mundialmente, sobre os novos ventos da União Soviética, que ele visitou. No seu artigo, escrito especialmente para este periódico, ele relata o seu comparecimento a um ato pela reabilitação do dirigente bolchevique Leon Trotsky, em Moscou. A atenção especial que dedicamos aos assuntos internacionais neste número decorre da importância desta questão para os militantes dedicados à construção do socialismo no Brasil. Neste país, as forças da barbárie se fazem sentir com mais intensidade, seja no reacionarismo exacerbado e violento que fecha as portas do futuro, seja no assassinato do passado, na eliminação física dos índios. É preciso agir e, ao mesmo tempo, refletir. Não é tarefa de Teoria & Debate apregoar qualquer tipo de doutrinas acabadas. Acreditamos no exercício da crítica e na elaboração política transformadora. É com o pensamento livre que se pode vencer a barbárie e caminhar para o socialismo moderno, democrático e revolucionário.

Conselho de Redação


Sumário:

Nacional
Ailton Krenak - Receber sonhos
por Alípio Freire e Eugênio Bucci

Economia
O vento e a vela
Aloízio Mercadante

Ensaio
Estratégia de mudança
Paul Singer

Comportamento
Os meninos estão de volta
Elisabeth Lorenzotti

Memória
Plínio Mello
por Dainis Karepovs, Valentim Facioli e José Castilho Marques Neto

Internacional
A Comuna de Pequim
Marília Andrade

Impressões de viagem
Pierre Broué

Debate
Programa para o campo
José Graziano da Silva
e Claus Germer

Cultura
Uma razão autoritária
Eugênio Bucci

Opinião
Marxismo e responsabilidade
Tarso Genro

Sociedade
Fazendo direito
Pedro Dallari

Trabalhadores
Que sindicato?
Gumercindo Milhomem

Livros
A rebeldia do trabalho, de Ricardo Antunes
por Jeter Gomes

A cavalaria vermelha, de Isaac Babel
por Maria Rita Kehl

Poeta: Augusto Massi


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