você está em:

 


 

Coluna Comportamento: O passado é um lugar seguro

Teoria e Debate nº 70 - março/abril 2007

publicado em 07/01/2008

Por Maria Rita Kehl*

A família de minha mãe teve uma pequena fazenda vendida quando eu tinha 7 anos. Ali passei as férias da primeira infância. Ali minha mãe passou todas as férias da vida dela. Ao deixar de ser nossa, a fazenda do Tatu virou mito. Durante muitos anos minha mãe me contava as aventuras da infância dela. Imaginada através de la neblina del ajer, a infância de minha mãe incorporou-se à minha própria memória em um escaninho paradisíaco, tanto mais meu quanto mais perdido para ela. Até hoje, diante de paisagens de terra vermelha ou do cheiro do capim-gordura na beira da estrada, sou tomada pela inquietante nostalgia de um passado que não me pertence: sinto saudade da infância de minha mãe.

A qual por sua vez terá chegado a mim atravessada por vagas lembranças da infância da mãe dela, nascida em uma fazenda ainda mais remota, em um interior perdido de Minas Gerais.Só muito recentemente eu me dei conta de que a doce vidinha de meus bisavós na lendária Pacau, matéria da nostalgia rural acalentada por minha família materna, teria sido sustentada à custa de trabalho escravo. Não que eu não soubesse nada disso. Achávamos muita graça no episódio em que alguns escravos de estimação de minha bisavó viúva vieram uma tarde lhe contar, candidamente: “Sinhá, o feitor não vai mais trabalhar por aqui porque nóis matemo ele”. Complacente ou indolente, sinhá contratou outro feitor e manteve os escravos a que estava habituada. A violência cotidiana da escravidão que culminou no justiçamento de um feitor anônimo e certamente cruel não impediu que a geração de minha mãe nos transmitisse uma saudade imensa dos “bons tempos” da vida no Pacau.

Bons tempos é o nome que damos ao passado – qualquer passado. São os bons tempos, é o nosso tempo. Passei a adolescência e parte da juventude sob a ditadura militar, e isso não impede que me pegue com freqüência a acalentar uma estranha utopia em retrospecto, de que “no meu tempo” a vida tinha mais graça. De todas as formas de escapismo inventadas pelos homens para suportar o osso duro da vida real, talvez a mais inconsciente seja a idealização do passado. Direita e esquerda, conservadores e progressistas cultivam, cada um à sua maneira, o mito de seus bons tempos. Isso é mais grave para a esquerda, que se arrisca a cultivar as utopias que já (não) foram. Mas não é de hoje que tudo fica cada vez pior aos olhos das gerações presentes. “Esse mundo tá perdido, sinhá!” – era o bordão da ex-escrava “tia Nastácia” nos livros infantis de Monteiro Lobato.

O mundo globalizado volta-se todo para o futuro. A vida imita a urgência das apostas antecipadas que cria as tais bolhas de não-riqueza do capital financeiro. A tecnologia aponta para a superação de todas as descobertas, que já nascem com os dias contados, fadadas à obsolescência. Chamamos de progresso a essa forma de vida breve das coisas, fruto do trabalho humano que envelhece tão rapidamente quanto elas.

O presente é uma partícula mínima de tempo, cada vez mais comprimida entre o que já foi e o que será. A rigor, pensem bem: o presente não existe. O futuro é um lugar gelado onde não vive ninguém, de onde só nos acenam promessas de velocidade. A depender das tecnociências hoje, no futuro nos deslocaremos ainda mais depressa, nos comunicaremos mais depressa, ganharemos e perderemos dinheiro mais depressa – e tentaremos envelhecer mais devagar.

O passado tornou-se o único terreno seguro onde a imaginação pode armar sua tenda e contemplar o mundo em relativa tranqüilidade. Na vida em retrospecto, todas as nossas escolhas teriam sido corretas. Teríamos sido abolicionistas no século 19, modernistas nos anos 1920, resistentes antifascistas em 1930- 1940, opositores firmes contra as duas ditaduras brasileiras. O passado nos poupa da dimensão trágica da escolha.

Mas é no presente que o corpo está vivo. No presente é que se jogam os lances de dados do destino. Ele é tudo o que temos – e nos escapa.

*Maria Rita Kehl é psicanalista

Tags:  
  • Notícias

  • FPA na Rede

  • Serviços

  • Buscar no Site

 

Partido dos Trabalhadores


FUNDAÇÃO PERSEU ABRAMO
Rua Francisco Cruz, 234 - Vila Mariana - CEP 04117-091 - São Paulo - SP - Brasil Fone: (11) 5571-4299 - Fax (11) 5571-0910