por Gustavo Venturi*
Inserida em pesquisas de cultura política e eleitorais, a pergunta-título pode se enquadrar naquilo que o sociólogo francês Pierre Bourdieu (1930-2002) classifica como "imposição da problemática. Comum em estudos quantitativos, essa prática consiste em interpelar subitamente uma amostra de cidadãos a respeito de temas sobre os quais muitas vezes nunca discutiram nem pararam para pensar, obtendo assim respostas irrefletidas, que seriam pouco confiáveis ou mesmo inválidas—expressão de uma "opinião pública" inexistente. Mas, sem arriscar, como medir, ainda que aproximadamente, a real extensão das identidades políticas esquerda e direita hoje no Brasil? Afinal, que significado e importância têm esses conceitos para o conjunto, da opinião pública?
Pesquisa da Fundação Perseu Abramo, após a reeleição de Lula (nov./06), aferiu, diante de uma escala de 1 a 7, que 13% dos 2.400 brasileiros entrevistados situaram-se à esquerda (pontos 1 e 2), 24% à direita (6 e 7) e 47% em um centro amplo (3, 4 e 5). Ou, ao gosto do observador, 23% localizaram-se em uma esquerda ampliada (1, 2 e3), 39% em unia direita ampliada (5, 6 e 7) e 221/o precisamente no centro (4). Apenas 16% não se autoclassificaram, sendo a média dos demais 4,4. Dados muito próximos aos obtidos antes da eleição presidencial de 1989 (Data fo 1 ha/Cedec): 22%à esquerda, 37% à direita, 19% no centro, 20% sem opinião e média também 4,4.
Pode-se concluir que a população brasileira era e permaneceu predominantemente de direita, no sentido político-ideológico do termo? Como explicar a eleição e a reeleição de Lula? Teria Lula migrado para a direita, ultrapassando seus adversários nessa identidade? Seria a prova de uma real conversão programática sua, para além do figurino eleitoreiro do Lulinha paz e amor? 0 tema é complexo para este espaço, mas alguns dados e a análise do que a opinião pública entende por esquerda e direita não sustentam essa interpretação:
1. Para a maioria dos que opinaram (já que quase metade não o fez em 1989 e mais de um quarto em 2006), o principal traço identificador desses conceitos, antes que referido a ideologias, é fruto de uma evidência observada ao longo da história da República: direita é sinônimo de situação, de estar no poder (respostas espontâneas de 20%, tanto em 1989 como em 2006); ser de esquerda é estar na oposição (percepção de 36% e de 24%.
2.O segundo elemento, ainda menos político (partilhado por cerca de 10%), define a direita como o que é direito, como o bom, o certo, e, por inversão, a esquerda como o torto, o ruim, o errado.
3. Essa acepção está tanto mais presente na compreensão dos eleitores quanto menor sua escolaridade. Assim, entre os que não passaram da 4ª série do ensino fundamental, 16% situam-se à esquerda, 44% à direita e apenas 15% no centro (25% não se localizam); entre os que atingiram o nível superior, 31% colocam-se à esquerda, 31% à direita e 32% no centro (7% não se situam).
4. Os segmentos de baixa escolaridade e renda (mesmo achando-se de direita) votaram em peso na reeleição de Lula, sobretudo pelo caráter social e distributivista (programaticamente de esquerda) das políticas públicas do primeiro mandato, em detrimento e rechaço do programa de direita (identificado como elitista e privatizante de Alckmin (ver "A construção da autonomia popular", TD n° 68, nov.-dez./06).
Também é verdade que as noções clássicas de esquerda e direita fazem sentido para parcela razoável do eleitorado: a média dos simpatizantes do PSOL que se situaram na escala de 1 a 7 foi de 3,1; a dos petiscas mais antigos, 4,3; a dos então pefelistas, 4,4; e a dos tucanos, 4,1. Talvez o que mais importa seja que, passadas mais de duas décadas de democracia, a construção de uma hegemonia político-cultural identificada como de esquerda não avançou.
*Gustavo Venturi é sociólogo e cientista político (gventuri@criteriumpesq.com.br).
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